Escolha Independência Financeira

Leva tempo.

Escrito por Débora Carvalho-Roy | May 25, 2026 1:00:04 PM

Vivemos em uma era que tudo acontece tão rápido. Hoje, quando entro em sites para comprar qualquer coisa, muitos deles me oferecem a entrega em dois dias. Alguns, me oferecem a entrega em algumas horas.

Sempre lembro quando esperar era algo normal. Sou uma millennial e cresci sem o acesso à internet até os 11 anos. Ou seja, para saber as notícias, a gente contava com as rádios e os jornais, tanto os de papéis (sim, aqueles cinzas), quanto na TV, que era o mais comum na minha casa.

Entre um acontecimento e o noticiamento desse acontecimento, a gente tinha que esperar.

Alguns acontecimentos, os mais extremos, eram televisionados. Me lembro bem das gêmeas desabando ao vivo, por exemplo. Mas eram casos extremos, e não por exemplo, um fim de romance entre duas celebridades. Naquela época a gente tinha que exercer a espera para saber de qualquer coisa.

Mas o que tudo isso tem a ver com finanças?

Tem tudo a ver porque acredito que muitos se esquecem desse detalhe que é: Leva tempo.

Quando pensamos na mudança dos nossos padrões, não podemos pedir que essa mudança aconteça em algumas horas ou dois dias, por exemplo. Leva tempo. E às vezes, muito tempo.

Vou te contar um pouco sobre mim e a minha jornada na maturidade financeira. 

Eu vou ser honesta, não sei exatamente quanto tempo demorou para a mudança de comportamento ir se concretizando em mim. Sinto que foi aos poucos e em diferentes áreas. O primeiro acordo que tive comigo foi - não vou dever. Como eu vim de uma realidade que tive que começar a trabalhar aos 16 anos para comprar as roupas que gostava, ou poder ir comer um pastel com meus amigos, dever era algo comum no meu cotidiano. 

Eu comprava roupas no cartão da minha mãe e às vezes pagava, mas muitas vezes não (desculpa, mãe). Com 18 anos, entrei na faculdade que logo saí porque não tinha dinheiro para pagar. Lá, me deram um cartão de crédito da C&A com o limite de R$600,00. Isso aconteceu em 2007 e pasmem - na primeira compra eu gastei o limite inteiro e simplesmente não paguei. Não sei se eu achei que poderia fazer como fazia com a minha mãe, eu realmente não lembro o que a Débora de 18 anos tinha na cabeça, mas sei que foi ali mesmo, no meu primeiro ano de "adulta" que eu me endividei de verdade. Com 18 anos e um nome sujo, eu segui esse padrão que era: "devo e não nego, pago quando puder". E fui levando isso até uns 21/22 anos. Com essa idade eu decidi não dever mais. Decidi que teria meu nome limpo e que pagaria sempre as pessoas que eu devia. Não me lembro se eu de fato cortei os gastos, acredito que sim, já que tinha que pagar sempre o que eu gastava.

Quando cheguei nos Estados Unidos, com quase 25 anos, eu fiz outra mudança. Decidi que além de sempre pagar as pessoas, eu teria algo sobrando. Não era muito. Lembro que ganhei $50 de presente de aniversário e aqueles $50 era minha reservinha. Era pouco, muito pouco e não é uma recomendação minha para ninguém, mas foi ali que eu assumi meu segundo acordo comigo mesma, que era que a Débora sempre teria algo guardado.

Aí veio a fase que comecei a ganhar $900 por semana. O ano era de 2015 e eu já tinha um ano e meio nos EUA. Até então eu ganhava $196,00 por semana. Outro ponto de honestidade: eu não gostava de ser babá. Amava minhas crianças, mas não gostava do serviço em si porque eu sentia que queria resolver problemas (que é o que faço hoje tanto no meu CLT, quanto aqui, ajudando pessoas com suas finanças), mas preciso lembrar que foi a ponte que me trouxe aos EUA e também, que me ajudou a chegar nos meus primeiros $7000 poupados. Dinheiro esse que usei para viver sem trabalhar durante meu processo de me tornar residente e também para entrar na faculdade por aqui.

Essa foi a maior quantia que consegui juntar por um bom tempo, uma vez que decidi voltar para faculdade, o que teve um custo, e também, fazer a transição para o corporativo, onde inicialmente eu recebia $800 a cada duas semanas. Mas vejam bem, acredito que ter juntado essa quantia, me trouxe a revelação de saber que eu conseguia sim juntar.

A partir desse ponto, muitas coisas aconteceram. Eu casei, entrei na Amazon para trabalhar no projeto Alexa — e me lembro de sentir que finalmente estava resolvendo problemas de verdade, que era exatamente o que eu sempre quis fazer. Depois vieram outras transições, uma casa, uma carreira que foi crescendo. E só em 2024, depois de 10 anos de Estados Unidos e 16 anos sendo adulta, eu iniciei minha jornada rumo à independência financeira.

Honestamente, esses pequenos acordos que fui fazendo ao decorrer da minha jornada financeira foram grandes marcos para tornar a jornada da independência financeira possível. E se a gente olhar bem, eles não tinham lá grandes objetivos. O que eram eles?

  • Não quero dever.

  • Vou guardar esses $50.

  • Estou ganhando bem, vou juntar pelo menos $1000 por mês. 

Eu não sabia o porquê de nada disso. Sabia que queria uma boa reputação financeira, ou seja, não queria um nome sujo, ou um crédito ruim. Mas, eu não sabia o que faria com meus $50 iniciais. Também não sabia como usaria meus primeiros $7000 guardados. Só sabia que queria ir levando daquele jeito e fui fazendo esses acordos comigo mesma. Eu não sabia nada de investimentos, mas percebia que os $0.06 centavos que meu banco me pagava por mês por ter minhas economias ali não me parecia lá grandes coisas.

Foram decisões imaturas, mas importantes. E levaram tempo para irem acontecendo e tomando forma. E hoje eu estou com 35% da minha aposentadoria. Não foi sozinha, tive ajuda de duas planejadoras financeiras. Mas acredito que meus pequenos acordos ajudaram um pouco no processo. 

Eu quero finalizar lembrando que eu não nasci assim. Eu não "puxei" meus pais em nenhum aspecto financeiro. Acredito que a única frase que eu amo do meu pai, e que talvez não seja tão politicamente correta assim no mundo das finanças, mas ainda assim eu ainda amo é: "não se deve comprar um carro quando ainda não se tem uma garagem para guardá-lo". Mas de resto, pensamos muito diferente. 

Minha maturidade financeira foi sendo construída de uma forma orgânica, dos meus pequenos e semi invisíveis acordos que fui fazendo comigo mesma, meus erros e aprendizados, ajuda de profissionais, e com o fator mais importante de todos: O TEMPO.

Portanto, se você acha que tá paralisado, que tá levando tempo demais e que não está vendo as mudanças acontecendo, lembre que leva tempo. Não pare. Mas também não espere que a mudança vai acontecer em dois dias, pois ela não vai. Mas ela vai sim acontecer se você tiver consciência do que quer e for alinhando seus comportamentos financeiros com o que é importante para você.

Me contem aqui nos comentários — vocês já perceberam seus pequenos acordos financeiros? Mesmo que ainda estejam tomando forma, quero saber.

Por hoje é isso.

Um grande abraço,

- Débora